quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Trinta e oito: A inspiração trovadora, um poema inicial

Pintura de Ruth Sanderson - As doze princesas bailarinas
Bonjour, ça va?
Apesar de estar um pouquinho envergonhada, deixo aqui o meu primeiro poema para a seção "Contos Particulares". Ele foi inspirado no trovadorismo medieval, época em que muitos poetas dedicavam seus poemas as meas senhoras, nobres da época. O eu lírico do meu poema é um trovador como esses... Seu nome, sua idade, quando ele viveu?
Respostas virão se vier outro de seu trabalho.
Espero que gostem...
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Senhora de olhos azuis e boca vermelha
Senhora que abre um sorriso de pérolas do mar
Senhora que solta fagulhas do coração, centelhas
Senhora que encheu meus olhos e decidi amar.
Senhora de lisos cabelos, em pontas duplas terminam
Senhora sabida de tudo e do destino
De muitos viajantes solitários, peregrinos
Quantos, Senhora, neste instante te amam?
Senhora de roupas douradas que roubam o brilho
O viço, o compromisso e a dor
Quais são dos seus sonhos, o sabor?
Quais são os meninos que roubaste os corações andarilhos?
Senhora da mente confusa e de alto intelecto
Senhora que gasta canetas e canetas
Para registrar, de sua vida, o aspecto
A bela face, o martírio, as caretas.
Senhora, menina, jovem mulher
Devoradora de futuros com preciosa colher
Levanta-te de teu austero trono
Fiapos, farrapos trançados e cromo
Levanta-te, Senhora, e me ouça já
Por seus olhos e sorriso, decidi te amar
Racional, Senhora, foi minha decisão
Por que decidistes roubar meu coração?

domingo, 6 de agosto de 2017

Trinta e sete: Toc, Toc - Duas construções e um desconstruído

Bonjour, ça va?
No trigésimo sétimo capítulo do blog, eu inauguro a seção "Toc, Toc", um pequeno momento em que compartilho com vocês as lindas aquisições que eu fiz em algum instante da minha rotina. O uso da expressão "Toc, Toc", lembra alguém batendo a minha porta, algo que eu adoraria que os carteiros fizessem em minha casa, mas que é impossível, porque moro em prédio. Fica o desejo de que isso aconteça um dia. A cada começo de capítulos especiais dedicados ao "Toc, Toc" eu começarei os textos com "Bonjour, monsieur facteur" que significa "Bom dia, senhor carteiro" em francês, língua que abracei no La Petite Souris. Como esse é o primeiro post assim, tive que fazer essa pequenina introdução, mas nos próximos será direto, não se preocupem!
Então vamos lá?
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Bonjour, monsieur facteur, ça va?
Hoje, as minhas três aquisições são literárias e, como foi sugerido no misterioso título do capítulo, dois livros são livros que eu chamo de "construtores" e o outro, bem, não há mais derrubadas de bom senso e sisudez do que ele proporciona.
Começarei pelos livros "construtores". Mas, como seriam livros assim?
Livros "construtores" são aqueles que auxiliam na formação do caráter do ser humano. São aqueles livros que nos ensinam a sermos pessoas melhores, enxergarmos o outro e seus anseios, sermos bondosos, corajosos, amigos, acreditarmos em nossos sonhos e nunca deixarmos de acreditar na Magia que paira pelo mundo.
O primeiro, eu já falei sobre ele aqui no blog. É "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry. Sim, eu dei uma chance para ele e, obrigada Senhor, por eu ter dado. Esse livro tornou-se um dos meus livros de cabeceira, aqueles que guardo na estante do meu coração e que eu levaria para uma ilha deserta para reler e reler, até esperar fielmente que o Pequeno Príncipe aterrissasse nessa ilha para me fazer companhia. Eu prometi fazer uma resenha desse livro em um próximo capítulo, assim como farei dos outros livros que monsieur facteur me trouxe, então aguardem por mais opiniões.
O segundo, é um livro que estava na minha wishlist desde que eu tive conhecimento dele e de sua história, e é "A Princesinha" de Frances H. Burnett. Eu estava passeando pelo site da Saraiva e percebi que os livros estavam com promoções boas, assim eu corri para ver se "A Princesinha" também estava nessa lista. E... estava! Que alegria, meus irmãos (nunca mais escreverei ou direi essas palavras sem me lembrar do Alex de Laranja Mecânica), quando soube disso e pude compra-lo!
Quando o livro chegou, encantei-me ainda mais pelo carinho da edição da Editora 34 recheada de belíssimas ilustrações de Tasha Tudor e com uma capa envernizada que valorizava ainda mais o livro. Além de "A Princesinha", tenho o volume de "O Jardim Secreto" editado pela mesma editora, o que me deixa contente e com vontade de comprar mais livros de lá. Quem sabe?
O terceiro livro, mas não menos importante e sim por ordem de leitura, foi o livro desconstruído. O livro de poemas de Tim Burton, "O Triste fim do pequeno Menino Ostra", um baldinho recheado do mais puro ouro para quem, assim como eu, é fã dos trabalhos do diretor americano.
Eu soube da existência desse livro pelos vídeos da Melina e comecei a dar gritinhos estridentes de alegria por ele existir e por ter um preço acessível. A edição da editora Girafinha contenta os meus olhos de fã, tanto pela escolha do material de impressão que sustenta as ilustrações de Burton muito bem, quanto pelas escolhas de posicionamento texto-imagem e pela capa, lindinha e simples, mas que reflete bem o mundo desse diretor.
Como eu farei a resenha de todos os livros que citei nesse capítulo, não darei muitos detalhes deles aqui. Queria dizer apenas que estou muito feliz por ter criado essa seção no La Petite Souris e desejo que vocês também.
Beijos.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Trinta e seis: Areado - Absorvendo novas paisagens

Bonjour, ça va?
Esse mês eu pude novamente viajar para uma cidadezinha do interior, aproveitando as férias da minha faculdade. O destino, dessa vez, alterou-se um pouquinho em relação às últimas viagens. Ao invés de eu ir para o interior do meu estado, São Paulo, eu fui ao interior de Minas Gerais em uma cidade chamada Areado, conhecida por sua represa e por ser a Terra do Biscoito (de polvilho, hmmm).


Quem acompanha o La Petite Souris talvez tenha percebido que eu adoro cidades pequenas e bucólicas. O meu sonho, aliás, é ter uma casa em uma dessas cidades, aquela que conquiste o meu coração, e morar definitivamente por lá. Mesmo eu tendo nascido na grandiosa capital de São Paulo, sinto que não me encaixo muito bem nas rotinas daqui, pois prefiro algo mais calmo, aconchegante e próximo a natureza. Daí, também me encanta a praia, mas talvez não para morar.
Voltando a minha viagem por Areado...
O hotel em que nós ficamos era bem afastado da cidade de Areado. O que nos permitiu ficar mais tempo nele do que passeando, ao contrário do que aconteceu quando fui a Lindoia que tinha muitas cidades próximas para serem exploradas. Então, eu pude passar bastante tempo fotografando a natureza linda que havia por lá. Essa é a primeira parte dos capítulos que dedicarei no blog a minha viagem de julho por solos mineiros, espero te ver por aqui acompanhando todos os Passinhos da Ratinha por esses posts!


Esses são os bois e vaquinhas que, a bem da verdade, eram os verdadeiros moradores dos campos de Areado. Podíamos andar nas estradas que levavam as fazendas que tinham muitos e muitos bois e vê-los fazendo, bem, o que os bois fazem em seu dia a dia. O mais legal era que, como as cercas eram baixas, eles pulavam e invadiam as estradas para comer, então era bem comum termos que esperar eles saírem de lá para que continuássemos o nosso caminho.
Apesar de ter olhado para a câmera nesse momento, eles eram bem antifotogênicos e apenas esperavam nós nos aproximarmos para olhar bem e virar. Eita como meu pai ficava bravo quando isso acontecia, haha.


A Represa de Furnas, como eu disse acima, é um ponto turístico bastante marcante na cidade de Areado. Nela, os moradores pescam. Há afirmações de que nessas águas existem peixes como o Tucunaré, o Dourado e criadores de Tilápias que fomentam a economia de lá, permitindo diversas lojinhas que vendem esses peixes já limpos para os turistas. Mas, além da pesca, Furnas também permite que viajemos por suas águas de barco, o que nós fizemos em nossa viagem! Toda a situação foi bem engraçada, pois o dono do barco se atrasou para nos levar, então minha família e mais outros hóspedes do nosso hotel fomos caminhando, caminhando, caminhando até pararmos em um ponto com águas mais fundas que supomos ser o lugar em que o barco zarparia. Só que pertinho do lugar havia uma colônia de urubus voando e pousando, o que atraiu a atenção de todos e deixou a espera mais divertida. Ah, e também em Furnas existem capivaras que, infelizmente, não vimos na semana em que ficamos por lá, mas garanto que elas existem.


Por fim, essa é a foto do brejo que existia mais acima do nosso hotel. Juro que aguardava ansiosamente para ver um sapo, mas nenhum apareceu pela manhã em que fomos passear nessa região. Nós estávamos indo em direção ao Pesqueiro do Seu Nelson que daria uma festa junina (ou melhor, julina) à noite para que decorássemos o caminho. Não adiantou muita coisa, pois o pesqueiro era muito mais longe do que esperávamos, mas valeu para conhecermos esse brejo e as vaquinhas da fazenda de milho de lá.
Bem, por enquanto é só. Aguardem pelos próximos capítulos em que comento mais de minha viagem, mostrando as flores que encontrei por lá e as minhas impressões finais.
Beijos açucarados.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Trinta e cinco: Uma segunda chance para Exupéry

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Todos os livros que comprei ou peguei emprestado em minha carreira de leitora voraz foram escolhidos a dedos por mim. Esse é um dos motivos pelos quais todos os livros da minha estante são tão queridos para mim: cada um tem uma história particular e especial.
Mas, nem sempre acertei em minhas escolhas.
Há livros que comprei pensando em uma história, mas no final o enredo se mostrou completamente diferente do que esperava. Esse é o caso de Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas.
Há livros que são aclamados pelos leitores de clássicos, mas que eu não gostei, mesmo relendo-o após alguns anos. Esse é o caso de As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift.
Há livros que tem uma capa linda e uma premissa interessante, mas que se mostra um livro clichê e mal explorado. Esse é o caso de A Maldição do Tigre de Coleen Houck.
Infelizmente, esses livros que descansam nas prateleiras da minha querida estante não me agradaram em muitos aspectos. Não significa que eu os colocarei no ostracismo eterno e nunca mais darei uma chance a eles, não! Eu sempre ofereço uma segunda chance aos livros que, no primeiro impacto, me afastaram de seus segredos. E é por isso que estou relendo O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry.
Sim, fiquem chocados, meus bons amis. Desde os meus seis anos, nunca mais reli o clássico maior da literatura infanto-juvenil chamado O Pequeno Príncipe, pois eu reforçava em meu coração a primeira opinião que tive dessa obra basilar.
A minha primeira opinião?
Bem, o texto me era muito árduo. As palavras embolavam em minha visão como pedras pontiagudas que não permitiam que eu alcançasse a mensagem que elas carregavam. Deixava-me triste não entender as metáforas, não captar toda a magia que os outros inseriam no pequeno livro. Por isso, desisti de o ler. Sim, desisti. Devolvi o exemplar que havia pegado na biblioteca no outro dia e rotulei O Pequeno Príncipe como um livro superestimado. Na verdade, eu o subestimei. Retrato-me agora.
Nas primeiras páginas que li, entendi finalmente o peso que Exupéry insere a cada parágrafo de sua obra. Desejo realmente que eu me encante tanto ao chegar as suas páginas finais.
Quando terminar, resenharei aqui no blog.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Trinta e quatro: O orgulho Lufano

Hufflepuf
Arte: Emily Corene



Bonjour, ça va?
O mês de julho possui duas datas especiais em meu coração: as férias tão esperadas, que traz consigo descanso e descoberta de novos lugares, e o aniversário do bruxinho inglês mais famoso do mundo, no dia 31 - Harry Potter.
E, para comemorar a segunda data julina, nada melhor do que contar a minha experiência com a saga de J.K Rowling nesse capítulo do La Petite Souris, mais precisamente sobre a minha tortuosa aceitação da escolha do Chapéu Seletor quanto a minha casa de Hogwarts, a Lufa-Lufa. Vamos lá?
Eu conheci Harry Potter por meio dos filmes. Como não nasci em uma época em que poderia acompanhar a série e crescer com os personagens, o meu amor por HP não transborda meu coração como ocorre com Percy Jackson, mas, ainda sim, me enche de animação quando entro novamente no universo da saga.
Assistia aos filmes, inicialmente, pela transmissão (quase semanal :P) deles no SBT. Minha mãe adorava (ainda adora) os filmes e eu cresci com boas doses dele. Mas, a minha fanzice surgiu quando eu assisti ao último filme no dia da estreia no cinema. Nesse momento, percebi o quão divertido eram os filmes e que universo complexo e fascinante que a escritora havia criado. Não tive dúvidas: comprei os livros, mês a mês, e terminei de lê-los em pouco menos de meio ano. Nessa época eu tinha catorze anos, digamos que HP foi o meu rito de passagem do ensino fundamental ao ensino médio, pois ele me acompanhou nos últimos meses do nono ano.
Enquanto lia os livros, J.K Rowling lançou o site Pottermore, alegrando todos os corações potterianos do mundo com a possibilidade de explorar o mundo bruxo e receber conteúdos exclusivos que não estavam nos livros originais. É claro que isso também me atingiu e eu fiquei super animada para saber qual era a minha casa de Hogwarts. Qual foi minha surpresa quando o teste do Chapéu Seletor me levou a Lufa-Lufa!
Ah, mes amis! Eu fiquei transtornada, creio. Eu queria porque queria entrar na Sonserina, afinal, eu sempre gostara de vilões e todo o ambiente ambicioso e maléfico que a casa mostrava nos filmes e nos livros me atraía. Refiz o teste, percebendo todos os macetes para me encaixar na Sonserina. Consegui, é claro. Mas, ao longo do tempo, percebia que a manipulação que eu causei não estava certa...
Eu era lufana. Não poderia me desviar de minhas próprias características que eram tão evidentes a qualquer um que conversasse sobre Harry Potter comigo. Re (re) fiz o teste do Chapéu Seletor novamente e, claro, deu que eu era da Lufa-Lufa. Decidi aceitar o meu destino.
Aí, surgiu Animais Fantásticos e Onde Habitam.
Newt Scamander in the Hufflepuff Common Room (+ the niffler and picket because I like to imagine they all knew each other way back then)
Newt Scamander no salão da Lufa Lufa <3
Antes de apresentar o universo bruxo americano, Animais Fantásticos e Onde Habitam é uma ode ao orgulho lufano! Todos se apaixonaram por Newt Scamander e, consequentemente, descobriram todas as qualidades da casa semi-figurante de Harry Potter e, aqueles que se escondiam por serem lufanos, após assistirem ao filme, decoraram todas as suas redes sociais com amarelo e preto.
Eu também, obviamente. La Petite Souris me permite ser o mais sincera possível comigo mesma em qualquer ponto da minha vida. Confesso que só após Newt Scamander me cativar com a interpretação fofa de Eddie Redmayne é que me orgulhei de ser lufana e busquei por mais informações da minha própria casa.
O orgulho e a fascinação aumentavam mais e mais a medida em que lia sobre a Casa. Tantos Ministros da Magia que eram lufanos e fizeram crescer o meio bruxo positivamente! Tantos bruxos amigos da natureza e dos animais que pertenceram a essa Casa! O ideal de Helga HufflePuff em acolher todos os bruxos que gostariam de estudar em Hogwarts sem fazer distinção me orgulhou ainda mais.
Hoje, tenho plena certeza de que faço parte da família Lufa-Lufa. E me orgulho disso com muito carinho. E você? A qual Casa de Hogwarts pertence?
Beijos açucarados.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Trinta e três: Em uma noite estrelada de verão

Bonjour, ça va?
O capítulo de hoje é sugestão da querida miss Bia que me indicou continuar o texto três no capítulo trinta e um do La Petite Souris. Espero que todos gostem :) e se quiserem, mandem sugestões de temas para as próximas histórias ou capítulos do blog pelos comentários!
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As estrelas eram como pontos de luz na feira anual de maio. Eram belíssimas. Ana surgiu vestida de vermelho com sapatos verdes  envernizados. Era belíssima. Tudo era, aliás, naquela noite de novembro quente de verão.
Ela parecia uma ajudante do Natal. Seu perfume tinha cheiro de canela e me lembrava os cinnamonrolls que vovó fazia em dezembro. Eu adorava. As duas coisas.
Ela sorria mostrando suas pérolas brilhantes. Eu, um garoto do interior, nunca me equipararia ao seu esplendor. Nunca. Ela era de leão. Eu era de peixes. Ela tinha 18. Eu não tinha coragem.
Ana aproximava-se de onde eu estava sentado. Era um banco branco de madeira que ficava perto do lago dos patos no parque central de nossa cidade. Estava lá há algumas horas, esperando-a. Havíamos combinado às duas da tarde, era cinco.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Trinta e dois: Há dois passos

Ilustração de Beatrix Potter
Havia duas pessoas que conversavam. Os dois se conheciam há anos, eram da mesma família. Um era membro de verdade. O outro, agregado. Ambos não se davam conta de suas posições dentro da instituição.
Um era moreno. Olhos azuis. Gabava-se do fato, já que alguns de seus irmãos não possuíam o gene que possibilitava possuir o céu no olhar. Na verdade, seus olhos eram mais como o céu que antecede uma tempestade. Eram azuis escuros, fulminantes. Zeus teria seus olhos se os gregos tivessem utilizado uma tinta mais duradoura.
O outro era calvo. O pouco de cabelo que cingia suas orelhas felpudas era branco já. Aquilo que se destacava em seu rosto, entretanto, não era a calvície e nem as orelhas de Rapunzel. O que mais chamava a atenção era o seu nariz. Alguns diriam que o seu formato era adunco. A bem da verdade, o seu nariz parecia uma letra L no meio da cara. Um L gigantesco, cheio de porosidade e batatudo. Quando ria, parecia que seu nariz era uma dançarina do ventre robusta.
Os dois conversavam. Já se conheciam há anos. O Outro havia carregado o Um no colo quando Um era bebezinho.
Nesse instante, um e outro não se respeitavam mais. Ninguém lembrava dos dias de infância de Um. Ninguém se lembrava de como Outro era ótimo em pife, mas sempre deixava que Um ganhasse para ficar contente.
Eles estavam brigando. O motivo já havia se perdido com tantas ofensas trocadas, tantos olhares raivosos e pequenas gotículas de saliva disparadas no calor da língua chicoteando. O tiro em Sarajevo era algo irrelevante quando os ânimos já estavam exaltados há muito tempo.
Um e outro haviam se desentendido por causa de futebol.
Há motivo mais brasileiro do que o futebol? Talvez, Caim fosse palmeirense e Abel, corintiano. Quem sabe Troia e Grécia fossem nomes de torcidas organizadas da Antiguidade? Tudo seria possível se Caim, Abel, Troia e Grécia tivessem nascido em solo tupiniquim.
Um e outro brigavam por causa de um título mal resolvido. Quem ganhou? O meu time ou o seu?
Atritos. As pessoas que estavam ao redor trocavam olhares. Afastavam qualquer coisinha de perto de um e outro: cadeiras, mesa, bibelôs, clipes de papel... Sabiam que quando o assunto era futebol, o melhor a se fazer era esperar a poeira abaixar.
A rusga estava se arrefecendo. As mãos paravam de girar em 180º e começavam a se balançar na direção de um e outro, prontas para um abraço ou mesmo um aperto de mão. Os olhos, tanto o castanho sem graça de outro quanto o azul faiscante de um, começavam a desviar a rota direta e fulminante. As vozes desciam três tons e já não espirrava mais as gotículas de saliva de seus lábios.
Estava quase terminando.
Um e outro aceitaram que o título de 19** havia sido de Outro. Deram-se as mãos. As lembranças antigas voltavam, o pife, a infância de um...
Fim da briga. Fim da festa.
Fim do encontro.