Um dom


Ana Maria nasceu com um dom.
De sua boca, saía dois tipos de ar enquanto falava: um cinza e o outro azulado.
Desde pequenina, quando Ana Maria tinha seus cabelos castanho-avermelhados amarrados em duas marias-chuquinhas e seus dentes eram tortos nos caninos, ela tinha esse dom.
Desde adolescente, quando Ana Maria saía às 20h para a aula de balé e desviava o seu caminho para a danceteria na outra esquina do estúdio, ela tinha esse dom.
Desde os vinte, quando Ana Maria ficava a tarde na faculdade participando da Bateria, ela tinha esse dom.
E esse dom a acompanhou por sua vida inteira até a vida adulta de Ana Maria.
Quando Ana Maria conheceu Luís Gustavo na porta da floricultura, quando esse estava atordoado e chorava por ter levado um fora da sua ex-namorada, Ana Maria continuava com seu dom. Ela o reconfortou. Ele passou seu número de telefone. Eles conversaram.
Quando Ana Maria se casou com Luís Gustavo e disse "sim" à pergunta clichê do padre, seu dom apareceu. Todos estavam acostumados, Luís Gustavo ainda não.
Demorou três anos para que ele se acostumasse com o dom de Ana Maria. Ele ainda se incomodava, mas se acostumou, porque o ar era, na maioria do tempo que passavam juntos, azul. E ele gostava de azul.
Mas, os anos se passaram.
Ana Maria completou cinquenta.
Sessenta.
Setenta.
Oitenta.
Eles tiveram quatro filhos: dois meninos e duas meninas. Os filhos de Ana Maria não herdaram o dom da mãe, o que foi uma benção para todos. Os filhos de Ana Maria deram netos a ela.
Quando Luís Gustavo completou oitenta e dois anos, deixou Ana Maria e seguiu para um outro plano.
Ana Maria teve seu dom intensificado naquela época. Não tinha com quem conversar, além das vizinhas de porta, e os assuntos que elas levantavam não eram os melhores para que o ar que saía da boca de Ana Maria mudasse sua coloração.
Um dia, quando Ana Maria tinha oitenta e cinco anos, algo terrível aconteceu. Ela começou a soltar tanto ar cinza, mas tanto ar cinza (viscoso e com um cheiro desagradável) que Ana Maria se asfixiou com ele.
Mas, o que ninguém sabia - o que sua família não sabia ao encontra-la em sua cama três dias depois de Ana Maria se asfixiar - era que o pulmão dela estava completamente diferente dos pulmões comuns do ser humano: o pulmão de Ana Maria estava inteiro cinza com exceção de uma pequena parte que ainda permanecia azulada!
Ana Maria morreu com um dom: toda vez que ela dizia coisas maldosas, o ar saía cinza de sua boca.

Comentários

  1. Que conto belíssimo!
    Encantada por essa escrita em duas cores, em dois ares de respirar. Linda!

    Abraços!

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    Respostas
    1. Oi, miss Gaby!
      Obrigada pelo elogio ao meu conto, eu tive bastante dificuldade em construí-lo, mas, com o tempo, eu consegui terminar...
      Eu queria ter deixado a mensagem oculta, porém não consegui. Preciso treinar mais isso, haha.
      Beijos açucarados

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