Uma fadinha chamada Violeta

A beautiful vintage illustration of a group of fairies.  Public domain print

Violeta nasceu da primeira risada de Sophia. O bebê era gorduchinho, sua cabeça ruiva chacoalhava os cachinhos de quando em quando para o contentamento de seus pais. Sophia era a primeira filha de um casal que se amava muito desde o primeiro instante em que se viram - e boatos depois confirmaram que os dois se amaram da mesma maneira até sua despedida final. Então, a bebê de bochechas rosadas era muito amada também.
O quartinho que a recebeu três dias depois dela nascer era um encanto para os visitantes. Seus pais não montaram-no só por ela ser uma garota: as paredes foram pintadas de um amarelo clarinho, as cortinas de renda branca filtravam a luz de fora deixando sombras largas no chão, várias estantes cobriam as paredes, recheadas de pelúcias e livros (A. A. Milne, Dr. Seuss, Beatrix Potter, Maurice Sendak)... Uma poltrona confortável para sua mãe sentar enquanto amamenta sua pequena. Uma das paredes era um mural feito por seu pai - ilustrador famoso de livros infantis.
Mas, o que importa agora é a risada de Sophia. Foi em um dia de chuva. O dia mais chuvoso daquele ano, quando raios cortavam o céu escuro a cada cinco minutos e trovões deixavam todos os moradores daquela pequena cidade apavorados. Os pais de Sophia decidiram leva-la para o quarto principal da casa para dormir com eles e, assim, poderiam ficar mais tranquilos. O pai da bebê foi até a cozinha buscar o balde de pipocas que havia feito para assistir a um filme com a mãe. Na volta um raio invadiu seu quarto e ele deu um pulo assustado: "JesusdocéuqueraioéesseMariaSenhor!"
Sophia, que estava prestando atenção em tudo, viu o pai dar aquele salto de canguru e ouviu sua mãe rir solto. Decidiu que deveria fazer parte daquele momento também, afinal, agora era da família. Sorriu e deu uma pequena risadinha. Seus pais ouviram aquilo e se deliciaram com o momento - a partir desse dia, todas as risadas de Sophia foram registradas pelos dois.
Quando a bebê sorriu, o vento que carregou aquele som começou a se transformar em uma fadinha. Como todos sabem, a fadinha foi guiada para o lar de todas as criaturas mágicas da Terra - a Terra do Nunca. E como todos também sabem, essa ilha era tão distante de tudo, que no caminho, Violeta (a fadinha) foi se formando como um ser. Primeiro, seu cabelo era tão preto quanto o de sua criadora era ruivo. Nele, flores pequeninas se enrolavam como se viessem do couro cabeludo da fada. Seu rosto era esperto, um nariz arrebitado e um sorriso otimista e bondoso. Seus olhos eram tão castanhos que as íris eram invisíveis para quem não as olhasse de bem pertinho.
A fadinha tinha um tamanho comum para as de sua espécie - sete centímetros. Seus pés ficaram nus para toda vida, ela não se adaptaria aos sapatos de folhas verdes que as fadas-sapateiras faziam para os habitantes do Nunca. Mas, usava um vestido lilás de mangas curtas e drapeados que era a sensação entre todas as novas fadas que chegavam ao Lar. 
Violeta chegou na Terra do Nunca suavemente, elegantemente e a Rainha Clair a consagrou como a fada mais educada que chegara ali em alguns bons anos. Todos os grupos de trabalho a queriam em seu time, mas Violeta demonstrou ser uma fada-da-água. Seu trabalho agora seria cuidar dos rios, lagos, cachoeiras e nuvens de chuva. Seu desejo era mergulhar no mar que cercava a ilha, mas isso era terminantemente proibido - as fadas não podiam molhar suas asas, porque elas demoravam muito para secar e as fadas-da-água precisavam delas a todo instante.
Porém, Violeta não era a única que tinha o desejo de ver o fundo do mar e, quem sabe, tornar-se amiga das sereias que lá moravam. Havia uma fadinha avoada que também desejava isso - Reina. Reina tentava de tudo para desenvolver um método que deixasse suas asas impermeáveis: clara de ovo, folhas secas, barro, saquinhos plásticos que uma de suas melhores amigas, Sininho, havia encontrado entre o lixo dos Tontos. Violeta se encantou pela coragem e determinação de Reina e as duas tornaram-se amigas inseparáveis, ambas em busca do sonho de nadar.
Por intermédio de Reina, Violeta conheceu Sininho e todas as outras do grupo das fadas mais aventureiras de toda Terra do Nunca. Aquela amizade se fortalecia a medida em que uma ajudava a outra em suas peripécias. Violeta era graciosa - educada, gentil, otimista e corajosa. Estava sempre pronta para ajudar a todos que lhe pediam, fadas e homens-pardais, em coisas que entendia e em coisas que não fazia ideia de como eram feitas, mas que se esforçava por tentar. 
Todos em Nunca gostavam dela, principalmente suas amigas que a apelidaram de raio de sol do oceano. Então, em seu segundo aniversário como fada em Nunca, eles decidiram ajuda-la a mergulhar no oceano junto com Reina. As fadas-costureiras procuraram pelo tecido da roupa de mergulho dos Tontos para fazer versões pequenas delas para Violeta. Sininho guiou um grupo de fadas-marceneiras para fora de Nunca para coletar o tecido e ajudar as fadas-costureiras. Acharam logo, na primeira praia que encontraram. As costureiras desenvolveram as pequenas roupinhas de mergulho. As fadas-velozes condensaram oxigênio em tubos de metal feitos pelas marceneiras. As fadas-da-luz e as fadas-da água desenvolveram juntas lanternas para as aventureiras.
As fadas-das flores não quiseram ficar de fora do evento do ano - preparam uma festa de retorno para Violeta e Reina, com a ajuda das fadas-cozinheiras que prepararam um banquete delicioso - frutas, pãezinhos de semente, ponche de alcaçuz com mirtilo. Tudo estava pronto. Reina e Violeta se vestiram, abraçaram-se e deram-se as mãos para aquela nova aventura.
O oceano era muito mais bonito do que as duas haviam imaginado. Os peixes eram como borboletas coloridas. Os cavalos-marinhos eram curiosos e deixaram que aquelas criaturinhas esquisitas montassem neles por alguns minutos. A baleia gigante era boba como os filhotes mamíferos que as fadas-veterinárias ajudavam a crescer. As águas-vivas eram lindas como o primeiro alvorecer do verão. Mas, nada se comparava com as sereias. 
Violeta e Reina as avistaram depois de um tempo no fundo do mar. Elas estavam brincando com algumas ostras que se recusavam a mostrar as pérolas que haviam fabricado instantes antes. Uma das sereias conseguiu abrir a ostra menorzinha. Seu sorriso era perfeito, emoldurado por seus cabelos esvoaçantes pela água. As fadinhas decidiram ir conversar com as sereias e, quem sabe, brincar junto com elas. Mas, as sereias eram tímidas com desconhecidos e aquelas criaturinhas pequenas com roupas azuladas eram a coisa mais esquisita que haviam visto em suas vidas! Violeta e Reina explicaram quem eram, mas as sereias não se aproximaram delas por nada. Violeta consolou Reina tentando ver o ponto positivo daquilo tudo - pelo menos, elas duas tinham visto as sereias de bem pertinho e, da próxima vez que voltassem para o oceano, poderiam conversar com elas.
Reina aquiesceu. Depois de mais algumas voltas pelo mar, vendo os temidos tubarões e rindo com as desengonçadas tartarugas, elas voltaram para a superfície. Toda Terra do Nunca as aguardava na orla da praia. Quando Violeta e Reina apareceram de novo, eles bradaram URRA. A roupa impermeável tinha funcionado, o tubo de ar havia durado todo aquele tempo, a lanterna tinha permitido que as fadinhas explorassem por todos os cantos do mar!
Agora era aproveitar o luau que as fadas-das-flores e as fadas-cozinheiras tinham preparado. Violeta, Reina e suas amigas dançaram, riram e brincaram a noite toda. Como aquele dia tinha sido feliz, o melhor da vida da fadinha de vestido lilás. Como era bom ser uma fada, como ela era grata por ter encontrado o caminho da Terra do Nunca. Ela só tinha que agradecer a Sophia e sua família pelo amor que a tinha formado.
Obrigada Sophia por sua risadinha.

(Esse conto foi desenvolvido com base nas descrições do livro "A Terra do Nunca e o Segredo das Fadas" de Gail Carson Levine)

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