Ao som de Baynton

Sobre as folhas secas, Dora caminha. Alinhada em sua reta imaginária, feliz por conquistar o seu primeiro amor.
A dor em seu peito não é mais de agonia, é de alegria. Explosiva alegria que não encontra espaço para se expandir em seu pequeno coração.
Dora, a menina morena de laço de fita, ouve os sons da floresta pela qual passa em seu dia de folga. Para. Ouve um pássaro cantar ao longe em busca de comida, frustrado pela inspeção minuciosa que os seus colegas de trabalho fizeram antes dele.
Dora sorri. Passarinho bobo! Quem precisa disputar por comida quando está cercado por ela? Talvez, o mundo, Dora. Talvez, as pessoas que são definhadas em algum país anônimo pelo sistema oculto que rege a economia. Paranoia.
Dora volta a caminhar. Seu corpo está ficando mais leve a cada passo que dá  na floresta de outono. Respira o ar e percebe o cheiro de folhas, o cheiro de madeira, o cheiro de amor. O seu, perfume almíscar, nota de livros velhos ao fundo, Schopenhauer, Goethe. A nota de saída é um leve tom de óculos tortos, sorriso enviesado. Mas, o que carrega o tom do perfume é a sensibilidade exacerbada, violinos no fone de ouvido, passeios no Tomie Ohtake.
Cheiro bom para Dora e para os pais dela.
A menina olha para os seus pés pela primeira vez no dia. Dora não costuma encará-los sempre, pois os seus olhos castanhos estão sempre refletindo o azul do céu, buscando formas racionais nas nuvens, procurando um pôr do sol rosado ao longe, nas montanhas que dão para a praia. Percebe que a reta traçada pela sua mente está se desviando em curvas. Seus pés lhe parecem molhados agora... Dora encontra um riacho.
Cascalhos. Peixes. Água transparente que espelha uma menina baixa, morena, cabelos curtos e sorriso estático. Uma pintura rococó. Porém, Dora quer ser traçada por Dalí. Surrealismo para fugir da realidade. Cidade?
Dora bebe a água e volta pela trilha anterior... Sai da floresta. Realidade, cidade.
Entra em casa.
"Como foi o seu dia?"

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