Ao deus da trapaça, com o amor que nasce da empatia entre estudiosa e objeto de estudo

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Fonte: Infovisual

Um sorriso enviesado. Tudo o que se podia dizer, concretamente, sobre ele era isso. De resto, nada que se dissesse seria sua descrição verdadeira. Atentemo-nos ao sorriso enviesado e nada mais. Um sorriso torto. Enlouquecedor. Estranhamente cativante. O sorriso dele possuía aquela vírgula no canto da boca que identificava três coisas em sua personalidade: desdém, sarcasmo e medo. 
Medo, sim. Medo em sua expressão mais pura proporcionada pelos filhos de Marte - o terror e a loucura apavorada, cáustica, lancinante. Era o medo que o movia o tempo inteiro. Era o medo de ter sua origem descoberta. O medo de não ser aceito. O medo de ser amado demais. O medo de não agradar e o medo de agradar a todos. E o medo o fazia ser cruel para consigo mesmo. E o medo o fazia ser trapaceiro para com os outros. E o medo deixava que aquela vírgula, no canto direito de sua boca, fosse eterna.
O desdém e o sarcasmo eram consequências naturais. Sua atitude era desdenhosa. Suas falas eram sarcásticas - o sarcasmo quase infantil que mais fazia rir do que chorar. Sua característica principal de personalidade, entretanto, era a inconstância de suas ações. Era como uma víbora: seduzia, para minutos depois, dar o bote venenoso que paralisava e matava a vítima com a incredulidade estampada vividamente em seus olhos mortos. 
E a inconstância de suas atitudes o fazia ser ignorado por aqueles que o cercavam. Seu medo do desprezo aumentou, assim como a parte vilanesca de sua alma. Ele precisava chamar a atenção. Seus olhos bicolores, ora azuis, ora verdes, iluminaram-se de entusiasmo quando uma ideia sórdida passou por sua mente: que tal brincar com a vida do mais querido entre todos? 
Descobriu o visco. Planta miúda, em alguns países sagrada, em outros vários a causa de beijos debaixo de portais. Fez um trato com a planta. Desse acordo, uma flecha envenenada. Matou o querido de todos, mas disfarçado. Não chorou por sua morte com outro disfarce. Foi reconhecido, preso, torturado. 
Mas, o que ninguém nunca se perguntou, talvez, foi sobre o que ele pensava naqueles momentos em que estava preso. Seus olhos, bicolores, haviam finalmente se decidido por serem violetas - era a mistura do azul de outrora, brincalhão e levemente irritadiço, com o sangue, real e figurativo, que o banhava. Suas feições eram, pela primeira vez, as verdadeiras: sua pele era de um tom levemente azulado, com linhas que lembravam as sutis curvas de um floco de neve. Seus cabelos, negros, caíam por seus ombros em cascatas. Era o único, entre todos, que tinha fios negros como o mais profundo vale. Suas roupas eram de três tons: verde, preto e dourado. Mas, o que mais chamava a atenção de todos era uma coisa que permanecia constante: o sorriso. Ainda enviesado, mesmo que seu dono estivesse passando por dores excruciantes e mesmo que a Loucura, filha do Medo, tivesse se apaixonado por ele, o tomando por completo.
O sorriso permanecia. Com a mesma vírgula, que era o fôlego de alguém que tentava compreendê-lo. E por seus pensamentos, passava momentos de amor e decepção. Passava músicas sagradas e risadas que causara entre alguns. Passava o olhar de terror de quem mais amou. Passava a sua infância, em que acreditava que seria rei, mas se tornou o clown da corte. Passava as lembranças de seu irmão, para quem ele mais mentira, pois sentia medo de que realmente o amasse. E amava.
Então, algo ou alguém, mais repentino do que um lampejo de carinho em sua alma, o libertou. Sua pele descoloriu-se para o tom habitual do disfarce. Seus olhos assumiram o tom esverdeado que significava que ele estava de bom humor, mas que pensamentos cruéis estavam escondidos em sua mente. Ele arrumou-se e voltou ao lar de todos. 
O espanto foi geral. E potencializado, pois ele não voltou sozinho. Levou consigo sua prole caótica, filhos do terror, maus em seus cernes, diferente de seu progenitor. Era o fim do mundo que se anunciava. 

Comentários

  1. CARAMBA, que conto maravilhoso! (E que medo dessa prole...)

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    1. Nossa, muito obrigada de coração, miss Larissa! Ler isso de você é mais maravilhoso ainda. E, sim, os filhos do Loki são basicamente o Caos do mundo nórdico... Beijos açucarados.

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